sábado, 12 de dezembro de 2009

Raul Bertrand


Se tem uma coisa que vale a pena ensinar aos filhos é que a vida não é nada fácil. Guimarães Rosa diz que a coisa não esta nem na saída e nem na chegada, mas sim na travessia e a historia que se vai narrar adiante, requer poucos detalhes já que de quem há de se falar teve uma vida simples, porém inundada de tal felicidade que nem um tal paraíso valeria como moeda de troca, muito menos de aposta já que tal vida vivida, impossível de ser renascida a não ser com as letras, foi algo maravilhoso apesar de faltar tudo, ou quase tudo.
Era de manhã, Raul Bertrand que apesar de nome de intelectual estava apenas na pré-escola, ia mais para aproveitar a merenda, pois tinha apenas uma refeição diária e poderia contentar-se com duas quando não faltava as aulas.
Aprendeu a escrever seu nome e sobre-nome, mas sempre a engolir o "r" do Bertrand, escrevia Betrand. A professora baixinha, de olhos puxados os ensinavam com paciência, dela ele não sabia o nome, e Raul nunca teve coragem de perguntá-lo pois no dia da apresentação pessoal da professora ele havia faltado devido uma forte chuva que tinha molhado bastante o solo paulista, não que isso era desculpa para falta, já que a escola ficava pouco mais de dez metros de sua casa, mas foi isso que aconteceu.
No caminho era interessante ver um carro de fórmula-1 que foi construído de areia, areia essa que era utilizada na reforma da escola, alguns vizinhos torciam o nariz mas quando viram a molecada que estava a disposição da arte benevolente, deixaram pra lá da implicância e logo comentavam: "até que ficou bonitinho mesmo".
No começo do projeto todos podiam por a mão na massa mas quando o negócio começou a ficar sério, somente cinco jovens se encarregaram de cuidar do tal automóvel de areia. Foi uma alegria só na rua ter visto o término da obra que foi batizado de AREIA-MÓVEL.
Tinha naquela época um campão de areia que reunia a turma do futebol, que ali ficavam na diversão, algumas crianças se dividiam um pouco no campão, outras no montarel de areia super visionadas sempre pelos maiores que agora tinha cercado o areia-móvel com pau e corda.
Tentaram em dias daqueles chamar o pessoal da televisão para propagar a tão grande obra de moleque, mas apesar da promessa nem sequer mandaram representante.
Raul era louco pra sentar no carro de areia, mas nunca podia já que sempre tinha um jovem adulto prometendo cascudos aqueles que se atrevessem a ultrapassar os limites impostos por eles que era demonstrado com corda e pau. Raul claro, preferia passar vontade a apanhar, mas naquele dia tinha coisa boa também, nem só de cascudos se vive a vida, e logo foi nosso amigo a escola.
O ambiente de aula estava bem desajeitada devido a reforma. Tinha até poça de água na sala, mas aprendíamos as vogais e nossas mãozinhas bem devagar faziam letrinhas quase que ilegíveis, mas aprendemos a escrever nome e sobre-nome.
Certa noite Raul teve uma idéia e combinou com seu amigo Fernando para que de noite lá pelas 10, saíssem a rua e fossem até o areia-móvel, e realizariam então o sonho de sentar no carro e seriam as únicas crianças a fazer tal ato. Lá pelas 10 horas conferidas no relógio grande e velho da sala, Raul saiu conforme combinado mas já se passavam 15 minutos e Fernando ainda não havia aparecido, ai foi que ele teve a idéia de jogar pedrinhas em seu quintal mas ficou com medo de acertar a janela e quebrar os vidros e desistiu depois da segunda tentativa. Começou então a assoviar quando de repente Fernandes respondeu com um assovio estranho que parecia mais um código-morse , o importante mesmo é que os dois se reuniram e deram então prosseguimento ao planejado. depois de alguns passos não acreditaram no que viram, e la estava o areia-móvel, só. A visão foi fantástica, nunca se tinha visto o areia-móvel assim sem ninguém por perto, seu olhos brilhavam muito, ele verdadeiramente era muito bonito e todos gostariam de tê-lo como se fosse de verdade, pena que não podia se locomover lamentavam alguns e lá estava Raul com seu amigo, era só pular a corda e pronto, estaria sacramentado, seriam os únicos que teriam sentados no carro e mais, sem cascudos.
Mas viram que nem sempre querer é poder, e tem coisas realmente que somente são para ser apreciadas, comida para os olhos, e foram acometidos de grande mistério, frio na barriga talvez e não tiveram tanta coragem e resolveram desistir e voltar.
Não estavam tristes por incrível que pareça, e nem ficaram comentando da atitude se foi certa ou errada, apenas voltaram felizes por terem visto o areia-móvel lá, diferente de todo mundo.
No outro dia, ao acordar pela manhã Raul foi a escola, não quis compartilhar com os amigos de sua aventura, preferiu ficar na sua, parecia mesmo que tinha sonhado e que aquilo tudo não passava de um devaneio.
Ao serem liberados da aula e quando chegou em sua casa, tinha uma vizinha que sempre os visitavam, e era bom porque ela levava sonho que ela mesmo fazia para comer-mos, quando ela me viu com a cartilha escolar na mão já foi logo perguntando:
- Você sabe ler?
Não esperei por nada e respondi logo:
-Sei escrever meu nome... nome e sobre-nome.

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