sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Alquimia


Faz algum tempo, tive que ir na escola onde estudei boa parte da minha vida. Cheguei por lá e as paredes eram as mesmas, paredes estas que haviam testemunhado muitas coisas e manias que eu portava na minha adolescência. Fui um aluno de terceira categoria, mas adorava acima de tudo fazer boas amizades, tão boas que algumas perduram até hoje, outras se foram sem deixar nenhum rastro e algumas fiz algum esforço de reencontro, mas sem a menor condição, por ter-se seguido caminhos tão diferentes e distantes daqueles de estudantes diários.
Rubem Alves diz que a memória é poder estranho, e que ela guarda coisas em sua gaveta que nem sabemos que existem, e não é que uma gaveta sem me avisar se abriu!
Lá estava eu aguardando uma pessoa quando vi o portão de acesso ao pátio, lá eu havia vivido grandes emoções como brigas, exibições sem graça, outras até engraçadas, papo furados e papos futebolísticos sem muito conhecimento de causa, só para dizer que eu pregava algo, assuntos musicais, paqueras, dentre outros.

Quando não resisti e fui dar uma espiadinha, uma grande alquimia aconteceu, e aquilo tão comum que sempre existiu me fez sentir o que estava escondido em mim mesmo, e eu nem me lembrava...tão bom que doía. Doeu por que se foi sem dizer que ia, e só agora que ví que se foi.
Me vi ali e descobri que naquele pedacinho tinha um eu registrado, ah quanta saudade! Eu costumava ter uma rotina com os mesmos lugares e amigos que nos viamos sempre e não era adepto a disputas, apenas a amigos e futebol e pouco estudo. Assim me era resumido, e houve um ano em que fui reprovado, tomei bomba, e muitos dos meus amigos partiram sem mim para um horário diferente, quando ví já era tarde e eles estavam agora sem mim. lembro-me até de um dia em que fui no horário matutino (meu horário era vespertino agora, já que havia reprovado) e subi em um muro e vi meus amigos jogando vôlei em pratica desportiva, e fiquei triste por não estar lá mas tive uma grande idéia. Iria me matricular em uma escola paga que tinha supletivo, daí alcançaria meus amigos e acabaria com todo esse sofrimento. Mas, minhas condições financeiras não permitiram. Fui até na tal escola e vi que seria utópico e tive que encarar a realidade.
Hoje se fosse dar um titulo para aquela fase diria: "naqueles tempos". Viví fazendo o que eu sabia de melhor: amizades. Todos eram meus amigos, vivi fazes nesta época em que meu brinquedo predileto era a guitarra, e passava horas a fio tocando e me dedicando e sonhando até mesmo uma apresentação para os meus amigos. Talvez buscasse compor uma música em acordes menores que substituísse aquele tempo, já que não tinha mais a metade do dia inteiro só para mim com eles.
Hoje tenho minha família que tanto amo, e fazem com que me sinta mais feliz ainda quando era mais novo, seria uma coisa muito ruim ter de escolher uma só, mas não abriria mão do que vivo hoje, ainda bem que a vida não é toda de ruim. Gostaria de rever todos meus amigos de novo, tudo de uma vez, explico pra minha filha aproveitar o máximo suas melhores amigas, pois elas um dia vão crescer e muitas vão desaparecer por aí neste mundo.

O pequeno príncipe cuidava da sua amiga rosa e ela fazia muito dengo. talvez eu peça ao papai do céu no meu próximo aniversário para reencontrar todos os meus amigos novamente. Assim teria de novo mesmo com 31 anos o rosto de um menino feliz, feliz por ter reencontrado uma grande alquimia.

sábado, 30 de janeiro de 2010

10 Pedacinhos de livros que lí e valem a pena


1) - Ai! que preguiça!...
(Macunaíma / Mário de Andrade)

2) Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são. (Macunaíma / Mário de Andrade)

3) Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? (Memórias Póstumas de Bras Cubas / Machado de Assis)

4) Que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia. (Morte e Vida Severina / João Cabral Melo Neto)

5) Minha pobreza talvez é que talvez não tenho presente melhor: trago papel de jornal para lhe servir de cobertor; cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor. (Morte e Vida Severina / João Cabral de Melo Neto)

6) É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas...

(Sentimento do Mundo / Drumond de Andrade)

7) Sou um fotógrafo, vejo e fotografo o que vejo com palavras.
(Ostra Feliz Não Faz Pérolas / Rubem Alves)

8) Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver, ele estava perdido e foi encontrado.
(Evangelho de São Lucas 15: 11, 32 / A Volta do Filho Pródigo)

9) Quem falou que este mundo é ruim! Só recordar... (Contos Novos / Mario de Andrade)

10) Mas se Deus é as flores e as árvores.
E os montes e sol e luas,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora!
E a minha vida é toda uma oração e uma missa.
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

(Alberto Caeiro / Fernando Pessoa)




*Bônus*



- O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração.

(O Pequeno Príncipe / Antoine Saint Exupéry)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Literando


"Deve-se ler pouco e reler muito." (Nelson Rodrigues)

Lendo muitos livros e relendo poucos vou trazendo pra minha felicidade frases, idéias, pensamentos e imagens que só a boa leitura nos proporciona. Devorador de livros que sou não deixo de ler aqueles clássicos imortais que passam por gerações nos fazendo olhar pra dentro e procurar o nosso eu interior, e também reconhecer que a falha humana é de todos.
Na minha leitura por exemplo, vejo o livro que são indicado por amigos, pesquisado pela internet, aqueles que queremos ler por se tratar de citação em uma obra boa, e também aqueles que apenas temos vontade.
Pego o livro com uma capa convidativa e me pergunto: Como que o autor vai iniciar este tema? E o final então? Quando que faltando algumas páginas logo penso: Não gostaria de ter a responsabilidade de ter que terminar esta obra, ainda bem que sobre mim nunca esteve este peso, penso.
Resolvi registrar aqui dezenas de livros lidos por mim, alguns que mais me marcaram em termo de início da obra e o capítulo final. É algo bem pessoal, que falou profundamente comigo me deixando perplexo, triste, introspectivo e também feliz é claro.
Foi algo que sempre gostei de fazer depois de ler meus livros passado algum tempo, reler as primeiras páginas e em seguida suas ultimas páginas...forte emoções.
Vou então enumerar dois livros com votos de sensacional para o começo e dois livros com tal voto para o final, não foi tão fácil já que temos inúmeros livros que caberiam aqui nesta reflexão, como por exemplo o livro São Bernardo de Graciliano Ramos que tem uma introdução fantástica e completamente par no final, e também tomo como exemplo a obra de Kafka, O Processo, que nos deixa revoltado e marcado por um final tão absurdo.

O livro de início fantástico: Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)

-Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser - se viu - ; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, essa figura rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram - era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente - depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja...

Segundo livro de início fantástico: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pos no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Primeiro livro de final fantástico: Memorial do Convento (José Saramago)

Meteu-se pela rua Nova dos Ferros, virou para a direita na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em direção ao Rossio, repetia um intinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente, Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aquele além e aquela são pai e filha que vieram por culpas do judaísmo, e o outro, o da ponta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava Antonio José da Silva, dos mais não ouvi.
São onze os suplicados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.

Segundo livro de final fantástico: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto. Não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência de Quincas Borba. somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque, ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

Livros como estes que fazem com que nos lembremos que não somos super-homens não, e que na verdade: "Existe é homem humano. Travessia"...inté!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

-ApotegmA-


Um apotegma é um aforismo que nada mais é que uma frase curta, que diz muita coisa, mas que não tem nada a ver com provérbios por exemplo. O jornalista Daniel Piza diz que na verdade aforismo é um contra-provérbio, já Rubem Alves diz que aforismo são frases curtas que são fotografadas pelas palavras e que nos diz muito ficando guardado em nossa memória.
Eis um meu pra vocês:
"Preocupar-se é tentar apanhar nas mãos aquilo que voa".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

reflexão


"O cotidiano rotineiro esta estampado no semblante de cada um. Não há em seus rostos comédia e nem tão pouco a tragédia. Apenas o ser com seus pensamentos em relação a sua própria existência!"

sábado, 2 de janeiro de 2010

Aforismo?

A solidão tem seu benefício: o não fazer bobagem que se faz a dois.

Plagiei tudo, e tudo em mim escrito estava...há Homero e suas ilíadas e odisseias!

O que é a verdade? conjecturas?

A estatística diz: para cada um leitor existem duas leitoras. A sede do saber é feminino.

No divã, apenas uma pergunta: Aonde vou?

Nunca vi um egoísmo peregrino. Ele sempre tem morada.

Rever conceitos é lembrar que a natureza existe.

Os dinossauros foram extintos com fogo, nós humanos seremos extintos com água: "sim nós podemos!"

Perdão é não acumular débitos e nem tão pouco créditos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Momento de Santidade



A sala é a mesma, passam das 10h da manhã. Em leitura reflectiva algumas crônicas para não deixar tudo desapercebido. O livro na mão e os pensamentos voam sem mais dar atenção merecida para o conteúdo tão bom que há no livro. Bom? Sim trata-se de Machado, algumas de suas crônicas, e passou então a lembrar de quanto era pecador, lembrava de cada ato que decepcionava seus aprendizados religiosos, como que vivia e não se comformava com algumas leis morais de Deus, sim, não havia em suas mãos nada guardado para apresentar em louvor em suas atitudes.
havia matado um inseto que lutava pela vida, mas sem nenhum respeito pela vida, deu uma grande sapatada naquele pobre bicho que mal sabia o porque da sua maneira santa de viver localizado na terra sua missão que era apenas voar e tirar a paciência das vidas racionais humanas. Teria também cobiçado a biblioteca de seu chefe e imaginava-se lá sentado com as pernas sobre a mesa sendo servido por serviçais seu chá predileto sob a releitura de clássicos, quando ainda concluía este pecado sobreveio não deixando terminar outro pecado que o deixava envergonhado: O furto da revista semanal de seu vizinho. Nunca tinha feito isso mas quando viu a capa tratando sobre a 2° guerra mundial, um tema predileto para ele, amava história, não resistiu, teve uma compulsão carnal, que vergonha logo ele que dizia que dos outros nem uma agulha sequer deveria ser pega. Mas, não resistiu e quando se viu já estava dentro da sua casa folheando uma revista que tinha identificado outro nome que não era o dele... ah, quanta vergonha, pecado e ignomínia. Realmente já dizia as escrituras, se seus olhos forem maus, todo o seu corpo será mau. Voltou em si, já não estava mais sentado e nem tão pouco com o livro em mãos, estava em sua janela larga com vista arborizada e cumprindo um mandamento cristão: Olhando as aves do céu que mesmo sem plantar e colher o Pai que estava nos céus dava provisão. O não pecar daquele momento foi divino.